quinta-feira, 30 de junho de 2011

O Diálogo das Almas

O shiatsu é um diálogo entre duas energias vitais. Neste diálogo é tão importante "o que" o praticante faz como "a forma" como ele o faz. A postura física e psíquica do praticante, a forma como toca, o que sente em relação ao paciente, tudo influi de maneira decisiva na qualidade do trabalho. Tudo para seduzir o corpo a desfazer as tensões e dores físicas que muitas vezes resultam não só de esforços físicos mas também de cargas psicológicas e emocionais. Ajudar o paciente a deixar de sofrer com o passado, deixar de "pré-ocupar-se" com o futuro, e vivenciar ao máximo os prazeres do presente. -"Yesterday is history, tomorrow is a mystery, but today is a gift, that is why it is called present".

Ohashi, no seu livro Do-It-Yourself Shiatsu, diz: -"O praticante de shiatsu deve a maior parte da sua habilidae à experiência. Também é verdade que o shiatsu não é uma mera técnica de manipulação - a atitude do paciente tem um papel importante na qualidade do tratamento. Se você (o praticante) não tem empatia com o seu paciente, o seu shiatsu não tem valor... Daí, perfiro trabalhar só com pessoas de que gosto, e, julgando pela minha experiência, esses sentimentos positivos produzem o melhor "shiatsu"."

É verdade que, algumas vezes, o terapeuta aprende a gostar de pessoa ao longo de uma série de sessões, mas algum potencial deve existir nesse sentido. O praticante deve, por isso, utilizar a sua percepção e intuição na avaliação desse potencial.

Em, O Corpo em Depressão, Lowen diz existir "uma grande diferença entre a espiritualidade do homem que trás o seu calor, compreensão e simpatia para as pessoas e a espiritualidade do asceta, que vive no deserto ou se confina numa cela" ou dentro de si mesmo. Enquanto que o primeiro tipo de pessoa está integrado na vida, o segundo distancia-se , acreditando que ser espiritual significa controlar e canalizar os seus instintos, sentimento e emoções. Pode tornar-se uma pessoa poderosa, mas dificilmente humana. A sua espiritualidade estrá fundamentada no ego, na ideia de que certos sentimentos são espirituais e outros não, determinadas atitudes são certas e outras são erradas; no fundo, cultivando um certo sentimento de superioridade em relação às pessoas que não se enquadram nos seus conceitos de espiritualidade.

A pessoa espiritual (se é que semelhante designação deva ser aplicada ou almejada) é autêntica, sincera e humana. Não tem medo de se expor ou de errar, pois confia na sua natureza e sabe que pode crescer através dos seus erros. A espiritualidade não é uma questão de atitudes ou de roupas, mas da capacidade de se ser inteiro, de se estar completamente presente e de aprender com a vida. De incorporar a matéria no espírito, o interesse na amizade, o sexo no amor.

O shiatsu é uma técnica de toque. Embora o paciente esteja vestido (não há necessidade de se despir pois não são aplicados óleos - o que para algumas pessoas é um elemento de conforto por terem dificuldade em despir-se perante um desconhecido e ainda serem tocadas por ele) é sensorial e intimista. As mãos do praticante têm de se moldar ao corpo do paciente.

O medo de tocar outra pessoa é essencialmente medo da sua própria sexualidade. O terapeuta de shiatsu deve compreender a sua própria sexualidade e não a reprimir. O praticante não deve ser sexual durante a sua prática, mas a menos que seja capaz de aceitar e se ralacionar harmonicamente com os seus sentimentos sexuais, não terá a liberdade física e psicológica necessária para realizar um trabalho profundo de shiatsu.

No shiatsu, ao contrário da acupunctura que utiliza agulhas, não há nada entre o praticante e o paciente (à excepção da roupa que este estiver a usar). O praticante de shiatsu "põe as mãos na massa". Como as pressões do shiatsu são feitas a partir de movimentos que mobilizam todo o corpo do praticante e exigem grande sentido de equilíbrio, o praticante tem de ter controle do seu próprio corpo, para além do seu toque e sentimentos.

O praticante deve estar consciente tanto da sua respiração como da do paciente; ela deve manter-se fluida. A melhor pressão é efectuada enquanto o paciente exala, principalmente quando se trabalha as costas, o tórax e o abdómen. O próprio praticante muitas vezes exala conscientemente enquanto pressiona. Também aqui o equlíbrio é muito importante. O praticante deve respirar e mover-se de forma fluída e hamoniosa, todos os toques e pressões executados conscientemente e sem tensões. Como disse Shizuto Masunaga: -"Um mestre transmite energia ki a partir do seu hara (centro) num estado de completo relaxamento".

Fazer shiatsu pode tornarnos mais centrados e mais equilibrados, tanto física como psicológicamente. É uma oportunidade de nos tornarmos conscientes na nossa mente e no nosso espírito. É bom para o corpo e para a alma. É uma oportunidade de crescimento interior. O shiatsu é uma troca, benéfica para o praticante e para o paciente. O praticante, ao lidar com pessoas, transmite aquilo que realmente é e não a imagem que o seu ego deseja transmitir. É esta a verdade que o paciente recebe; a verdade de um ser humano para outro.